terça-feira, 30 de setembro de 2008

O meu primeiro beijo


O meu primeiro beijo foi há muitos anos.Foi um beijo roubado na escola nº25, nos Olivais, em Lisboa.
Lembro-me vagamente desse beijo roubado... E, embora fosse o primeiro beijo, era roubado e para uma menina tímida e envergonhada, roubarem-lhe um beijo era qualquer coisa de muito pertubador.
Não ,me lembro de quem estava por detrás daquele beijo, se era o Manuel, o Pedro ou o Gonçalo, mas lembro-me de ter ficado muito aflita e de fugir do recreio a correr e, depois chegar a casa , pedir vezes sem conta à minha mãe para nunca mais voltar à escola. Felizmente saí da escola nº25, não quando eu quis, mas no final do ano lectivo e fui para uma escola preparatória fazer o primeiro ciclo."Ufa! Nunca mais serei atormentada por roubadores se beijos! Estou safa.", pensei eu.Lembro-me de poucas coisas da escola primária.Lembro-me de estar sentada à frente na sala, lembro-me de que tinha uma amiga, mas não me recordo do seu nome, lembro-me de que decorei a tabuada e de sabe-la na ponta da língua, lembro-me de que nunca levei uma reguada na palma das mãos, lembro-me do imenso pátio branco, lembro-me das fotografias escolares em que ficava com cara de bolacha, lembro-me, com saudade, da escola nº25, destruida entretanto. Foram quatro anos intensos... com lembranças daquele beijo roubado.Aquele acontecimento tinha sido varrido da minha memória.Tinha a certeza de que nunca mais me lembraria daquele beijo.Mas as certezas na infância nunca são definitivas e, por isso,, pouco tempo depois, já no ciclo preparatório, a rapariguinha tímida passou a ser "curiosa".Nos jogos infantis do "verdade ou consequência" e do "bate pé" as regras foram alteradas. Ainda hoje não sei exactamente o que era necessário fazer para ganhar ou perder beijos.Pergunto-me se o jogo que o meu filho joga na escola, "tutti-frutti", não será apenas o up grade do "bate pé". Dantes "chochos", Agora "bate-chapas". Mas as nossas regras eram muito próprias, regíamo-nos pela quantidade e não pela qualidade.

Dez, vinte, trinta "chochos" ráplidos e sem qualquer convicção, faziam do nosso grupo fututos beijoqueiros implacáveis. E, naquele dia, em casa da filipa, em que dançamos na escuridão do seu quarto à luz ténue e avermelhada, ao som do "Baby, I love you" e dos Ramones, voltaram-me a roubar um beijo...

Só que desta vez, inesplicavelmente, não fugi, não corri, não me envergonhei e não pedi para não o voltar a fazer.

Nesse dia, eu desejei que me roubassem um beijo.

Essa era a grande diferença!!



Florbela Nunes


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